Fertilizantes como infraestrutura crítica: O perigo que Davos prevê, mas que o Brasil já vive
- Sinprifert

- 23 de jan.
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Estamos naquela época do ano em que os jatos particulares aterrissam em Zurique e os trens lotados chegam em Davos Platz, onde a elite global se reúne no Annual Meeting do Fórum Econômico Mundial. Neste ano, uma mensagem clara ecoou nos palcos do Centro de Convenções aos pés da “montanha mágica”: a economia global entrou em uma era de escassez controlada.
O Global Risks Report 2026, lançado no evento, deixa implícito o que nós, que produzimos os insumos que alimentam a produtividade da agricultura brasileira, sabemos há anos: fertilizantes não são commodities. São infraestrutura crítica. E o Brasil precisa decidir, o quanto antes, se trata esse setor como estratégico ou se aceita viver sob o risco constante de uma fome por insumos críticos.
O que o Global Risks Report 2026 realmente diz — e por que importa para o Brasil
O GRR 2026 não é mais um documento de advertência genérica. É um instrumento de foresight estratégico e de inteligência geopolítica. Pela primeira vez, o relatório coloca “geoeconomic confrontation” — a guerra econômica entre potências — como o risco mais provável de deflagrar uma crise global em 2026. Ao mesmo tempo, “natural resource shortages” (escassez de recursos naturais), “disruptions to systemically important supply chains” (rupturas em cadeias sistêmicas) e “weaponization of economic policy” (armamentização da política econômica) ocupam o topo da lista de riscos de longo prazo.
A mensagem é brutal: insumos críticos — alimentos, energia, minerais, água e, sim, fertilizantes — deixaram de ser negociados por preço e passaram a ser alavancas de poder. O relatório descreve cenários em que países detentores de recursos essenciais usam controles de exportação, sanções e quotas para forçar concessões políticas. O Brasil, o maior importador mundial de fertilizantes, dependente em mais de 90% dos nutrientes que consome vindo de fora, é o alvo perfeito dessa lógica.
A Rússia e Belarus, que juntos fornecem quase 40% de todo potássio ao mundo, estabeleceram uma parceria estratégica para gerenciar limitações às suas exportações de potássio. Desde 2021, e de forma mais agressiva desde o fim de 2025, a China vem restringindo exportações de fertilizantes e insumos como ácido sulfúrico para segurar preços internos e priorizar sua própria segurança alimentar. Juntos, esses países respondem por algo em torno de um terço do comércio mundial de fertilizantes e, no caso brasileiro, são responsáveis por aproximadamente metade do volume total importado de fertilizantes.
Mas o GRR 2026 vai além. Ele introduz e consolida o conceito de “systemically important supply chains” — cadeias cuja ruptura desorganiza o sistema econômico como um todo. Fertilizantes caem perfeitamente nessa definição: sem nitrogênio, enxofre, fósforo e potássio, a produção agrícola cai à metade em duas safras. O Brasil, que exporta algo próximo de US$ 169 bilhões em alimentos, teria boa parte dessas exportações evaporada. É um risco de instabilidade macroeconômica, inflação descontrolada e quebra de reservas internacionais comparável a uma crise energética.
Ainda mais crítico: o relatório destaca que autarquias de recursos (políticas de autossuficiência) e estratégias de “soberania de insumos” deixaram de ser protecionismo e passaram a ser resposta racional ao atual ambiente de confrontação sem horizonte para arrefecer. A Europa criou o Critical Raw Materials Act, o Canadá publicou o Canadian Critical Minerals Strategy e os Estados Unidos o Final List of Critical Minerals, todos listando fertilizantes como minerais e materiais críticos e estratégicos. A Índia e a China já têm estoques nacionais compulsórios. O Brasil, até agora, trata fertilizante como insumo qualquer, sujeito ao mercado global, apesar de avanços parciais como o Plano Nacional de Fertilizantes.
A Geopolítica da Alimentação
No segundo dia do evento, o painel “When Food Becomes Security”, hospedado pelo Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (IFAD), representa um marco na discussão global sobre a interseção entre segurança alimentar, resiliência econômica e soberania nacional. No cerne do debate emerge a visão de que a segurança alimentar não é apenas uma questão humanitária, mas um imperativo estratégico para a estabilidade nacional.
Estrategicamente, considerar a cadeia de fertilizantes como infraestrutura crítica justifica-se pela sua capacidade de prevenir instabilidades políticas e migrações forçadas. Sem controle soberano sobre fertilizantes, países importadores tornam-se vulneráveis a sanções, embargos ou crises energéticas (já que a produção de fertilizantes depende de gás natural e outros recursos): a crise de fertilizantes de 2022-2023, impulsionada por sanções à Rússia (maior exportadora), demonstrou como a falta de autossuficiência pode levar a inflação alimentar e agitação social. Assim, investir em produção local de fertilizantes não é mero protecionismo, mas uma defesa contra “guerras híbridas” onde o alimento se torna arma.
Implicações Ambientais e Sociais: Sustentabilidade como Base da Soberania Duradoura
A integração do clima como fator multiplicador de riscos, com fertilizantes desempenhando papel duplo: mitigar impactos (aumentando resiliência de cultivos) e reduzir pegada ambiental (via precisão que minimiza desperdícios), enfatizando incentivos para práticas “climaticamente inteligentes”. Estratégicamente, isso justifica fertilizantes como infraestrutura crítica porque a soberania não se resume a produção, mas a sustentabilidade de longo prazo. Dependência externa pode expor nações a choques climáticos globais, enquanto controle local permite adaptações, como variedades resistentes a secas.
Essa análise põe em xeque paradigmas atuais: muitos governos tratam fertilizantes como commodity, ignorando seu potencial como ferramenta de soberania. Recomendações incluiriam: (1) investimentos em produção doméstica; (2) parcerias público-privadas para inovação; (3) políticas de minerais e materiais críticos que incluam fertilizantes e suas matérias-primas, semelhantes a reservas energéticas; e (4) integração em agendas de segurança energética e descarbonização industrial. No Brasil, por exemplo, onde a agricultura é pilar econômico, isso reforçaria a soberania contra volatilidades globais, alinhando com metas de bioeconomia.
Em suma, Davos posiciona a cadeia de fertilizantes não como mero insumo, mas como espinha dorsal da soberania nacional, capaz de transformar vulnerabilidades em forças estratégicas. Essa perspectiva oferece rico material para alertar líderes sobre a urgência de ações, evitando que a escassez alimentar se torne catalisador de conflitos globais.
A tradução para o território brasileiro: por que fertilizantes são infraestrutura crítica
Primeiro, pela lógica econômica.
Fertilizantes são um dos insumos de maior impacto multiplicador da economia brasileira, com rigidez de demanda absoluta, poder de inflacionar a economia comparável à energia, risco fiscal de balanço de pagamentos e retorno de soberania superior a qualquer infraestrutura tradicional. Tratá-los como “commodity” é ignorar que uma parcela decisiva da nossa capacidade produtiva — e perto de um terço do PIB ampliado, quando consideradas as cadeias ligadas ao agro — repousa sobre um insumo que não controlamos.
É gestão macroeconômica insensata e altamente arriscada.
Estudos da FAO, do Banco Mundial e do IPEA convergem em um ponto: a agricultura brasileira só conseguiu combinar expansão de área e salto de produtividade porque incorporou intensivamente tecnologias como correção de solos, melhoramento genético, mecanização e, em especial, fertilizantes minerais em solos tropicais de baixa fertilidade natural. Modelos econométricos do IPEA, estimados para o período 1990–2021, mostram que choques na quantidade de NPK entregue ao mercado explicam entre cerca de um terço e quase a metade da variação da quantidade produzida das principais commodities (soja, milho, cana, café e algodão). Em termos de impulso-resposta, um aumento de 1% na quantidade de NPK entregue pode elevar a quantidade produzida dessas culturas em torno de 3% no longo prazo. Em outras palavras: choques em fertilizantes têm efeito amplificado sobre a oferta de alimentos.
A rigidez de substituição é próxima de zero. Modelos de vetor autorregressivo estrutural (SVEC) aplicados ao Brasil indicam que um aumento de 1% no preço de importação de NPK reduz a quantidade entregue de fertilizantes em cerca de 0,5% no longo prazo, isto é, uma elasticidade-preço da demanda em módulo próxima de 0,5. Na prática, mesmo sob forte alta de preços, o produtor reduz pouco o volume aplicado, porque não há substituto técnico imediato: compostagem orgânica demora 3–5 anos para escalar; rotação de culturas reduz receita em até 40%; agricultura de precisão sem nutrientes minerais é precisão no vazio. O produtor brasileiro não pode deixar de fertilizar: a margem de lucro de soja/milho é estreita, e a perda de produtividade sem fertilizante é potencialmente da ordem de dezenas de pontos percentuais. Deixar de fertilizar, para grande parte da produção empresarial, é falir.
O efeito inflacionário decorrente disso é relevante. Quando o preço dos fertilizantes disparou em 2021–2022, dados de custos de produção da Conab mostram aumentos de três dígitos nos gastos com fertilizantes por hectare em milho safrinha, soja e cana-de-açúcar em regiões como Sorriso (MT) e Penápolis (SP), elevando em mais de 10 pontos percentuais a participação desse item no custo total em algumas culturas. Em episódios como esse, exercícios de simulação com matrizes de insumo‑produto indicam que choques grandes nos preços de fertilizantes podem acrescentar alguns pontos percentuais à inflação de alimentos e mais de 1 ponto percentual à inflação cheia, o bastante para deslocar a trajetória da taxa Selic e encarecer significativamente o serviço da dívida pública. Cada crise de fertilizantes, portanto, é também uma crise macroeconômica em potencial.
O impacto na balança de pagamentos é estrutural. O Brasil importa, ano após ano, dezenas de milhões de toneladas de fertilizantes, com dispêndio frequentemente superior a US$ 20 bilhões, enquanto exporta algo como US$ 160–170 bilhões em produtos agropecuários. Em anos de preço elevado, essas importações de fertilizantes chegam a equivaler a algo entre 12% e 15% do valor das exportações do agro. O risco, porém, é assimétrico: sem fertilizantes, não se perde “só” 12–15% — cenários extremos de interrupção prolongada de suprimento indicam que perdas de exportações da ordem de 30–40% não são implausíveis, o que empurraria o país para um déficit de transações correntes de dezenas de bilhões de dólares e forte pressão cambial. A crise de fertilizantes de 2022 já mostrou, na prática, como choques nesse insumo podem destruir valor de mercado no segmento agro e acender alertas sobre o risco soberano brasileiro.
O custo de oportunidade da soberania é enorme. Um programa que mobilizasse algo como R$ 15 bilhões em novas plantas nacionais de fertilizantes poderia, em um horizonte de uma década, reduzir importações em dezenas de bilhões de reais, aliviar pressões inflacionárias e, por consequência, diminuir parte do custo da dívida pública, ao evitar ciclos de aperto monetário induzidos por choques de insumos. Exercícios de custo‑benefício razoáveis indicam que o retorno social desse tipo de investimento é comparável — ou superior — ao de grandes projetos de energia e logística. Não investir em capacidade nacional de fertilizantes é aceitar um custo de oportunidade de dezenas de bilhões de reais e manter exposição a um risco de “fome por insumos” que, em cenários severos, pode custar alguns pontos percentuais de PIB.
Segundo, pela lógica geopolítica.
Quem controla fertilizantes controla a produtividade agrícola; quem controla a produtividade agrícola controla preços de alimentos, inflação, estabilidade social e poder de negociação internacional. O Brasil é o segundo maior exportador agrícola do mundo, mas não controla o insumo que torna essa exportação possível. Isso não é estratégia. É exposição deliberada. O Brasil precisa decidir se quer ser ator ou alvo.
A tradição diplomática brasileira de neutralidade estratégica — construída sobre os pilares de Ruy Barbosa (não intervenção, solução pacífica, defesa do multilateralismo) e reafirmada na Constituição de 1988 — pressupõe autonomia de decisão. Pressupõe que o Brasil pode, em teoria, escolher não tomar partido em conflitos entre grandes potências. O problema é que essa autonomia é funcional apenas enquanto o Brasil não depende de nenhum dos lados em insumos críticos.
Essa nova geopolítica de recursos não é uma ameaça futura. É atual. O Global Risks Report 2026 é claro: na era de competição por recursos, quem não tem redundância doméstica vive à mercê de quem tem hard power. O relatório mostra que, no horizonte de dez anos, quase três quartos dos especialistas esperam um cenário “turbulento ou tempestuoso” para riscos ambientais e de escassez de recursos, o que implica turbulência quase contínua em cadeias de insumos essenciais. O mesmo estudo mapeou já em 2023 cenários de “Resource Wars” em que minerais críticos e insumos agrícolas são utilizados como instrumentos de coerção de Estado — não como teoria, mas como tática já testada: a Rússia, em 2022, restringiu exportações de potássio e outros fertilizantes, e o preço global saltou em múltiplos de três dígitos em poucos meses.
Estamos a um embargo de distância de uma crise de abastecimento nacional. O fechamento e a paralisação de unidades como as FAFENs no Paraná, Bahia e Sergipe praticamente reduziram a capacidade nacional de produção de amônia e ureia a zero, deixando o país ainda mais exposto às importações. Embora o Brasil ainda produza enxofre e ácido sulfúrico como subprodutos do refino de petróleo e essenciais para a produção de fertilizantes fosfatados, a dependência externa em insumos críticos da cadeia N-S‑P‑K tornou‑se estrutural. A China vem reduzindo a oferta exportável de ácido fosfórico purificado e redirecionando capacidade para a cadeia de baterias LFP, priorizando sua segurança industrial e energética e deixando menos produto disponível — e mais caro — para o restante do mundo. A recente paralisação da produção de superfosfato simples (SSP) de algumas plantas industriais no país, devido à disparada do custo do enxofre, expõe como estamos sendo comprimidos na encruzilhada “food vs energy”.
O custo de não agir é catastrófico: se o Brasil mantém a dependência, cada choque global será absorvido integralmente pelo produtor e pelo consumidor brasileiro. Em 2022, o país chegou a gastar cerca de US$ 25 bilhões na importação de fertilizantes — maior valor de déficit da pauta de importação nacional—, e choques dessa magnitude têm potencial para elevar a inflação de alimentos a dois dígitos, derrubar a produção de grãos em dezenas de por cento e gerar risco de desabastecimento de proteína animal. Cenários de estresse construídos por instituições de pesquisa em segurança alimentar e risco soberano estimam que um episódio agudo de embargo parcial por alguns meses poderia gerar perdas de PIB da ordem de alguns pontos percentuais, em magnitude comparável a grandes crises financeiras.
Terceiro, pela lógica de infraestrutura.
Uma fábrica de fertilizantes exige investimento de US$ 1–5 bilhões, ciclo de 5–7 anos para operação plena e gera multiplicador de valor agropecuário elevado para cada real investido — exatamente o mesmo perfil de usinas hidrelétricas, ferrovias ou portos. Fertilizantes têm multiplicador superior porque desbloqueiam toda a cadeia que corresponde a quase um terço do PIB nacional. Mas há uma diferença crucial: ferrovias, portos e hidrelétricas são formalizados como infraestrutura prioritária, enquanto fertilizantes ainda são tratados como “commodity importada”, apesar de serem “infraestrutura invisível” que sustenta toda a infraestrutura visível.
Economistas como Partha Dasgupta (2021) e Mariana Mazzucato (2021) argumentam que capital natural expandido — solo, biodiversidade, nutrientes — deve ser tratado como ativo produtivo depreciável, não como “recurso gratuito”. Fertilizantes são “infraestrutura bioquímica”: eles reconstituem o capital natural que a agricultura extrai.
Sem fertilização, o solo é “infraestrutura em depleção”:
Perda de nutrientes: agricultura intensiva retira dezenas de quilos de N, P, K por hectare/ano.
Recuperação natural: em solos tropicais, pode demorar décadas para reconstituir nutrientes sem adição externa.
Custo de oportunidade: deixar de fertilizar terra arável produtiva é como desativar uma hidrelétrica — perda permanente de capacidade produtiva.
Se o século XX foi o século do petróleo como infraestrutura da indústria, o século XXI já se anuncia como o século dos nutrientes como infraestrutura da segurança alimentar e da estabilidade macroeconômica. A diferença é que o Brasil, desta vez, está do lado errado da equação: não como detentor do recurso crítico, mas como dependente dele. E isso é uma escolha política — não um destino inevitável.



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